A TENDÊNCIA DEMOCRACIA SOCIALISTA (DS) E A DESCONSTRUÇÃO DO "SONHO POPULAR PETISTA"

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por Antonio Osmar*

A partir dos anos 80, brotou no Estado do Pará a idéia de que  era possível,  ao povo,  'construir e assumir' sua história. Essa constatação "acendeu" a luz de que a construção de novas  estruturas a partir da participação popular poderiam quebrar as amarras do poder constituído e sustentado pela política  tradicional e paternalista da classe dominante (os posseiros do poder governamental).

Na capital e no interior, intensificaram-se reuniões, formaram-se comissões de bairro, que mais tarde deram lugar aos centros comunitários e a estruturação de sindicatos entre outros. Essas estruturas políticas não governamentais eram compostas na sua maioria, por pessoas  muito simples, em geral, vindas do interior e não raramente , analfabetas. 

Eram trabalhadores quase sem qualificação, mas que passaram acreditar que eram importantes para o conjunto da sociedade e que dela faziam parte, por isso poderiam decidir sobre seu futuro. Para usar um termo religioso daquela época, essa massa contava com o “fermento” das idéias progressistas de Igrejas, profissionais liberais e da Universidade.

Em muitos municípios paraenses a ação era travada na área da conquista dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais e das Colônias de Pescadores (aliás esse termo colônia ainda continua sendo entre os pescadores,símbolo de dominação pela própria palavra, mas sobretudo onde ainda existe a figura do capataz como organizador dos pescadores).

No bojo dessas ações, uma pergunta se fez necessário: o que temos em comum: Cidade e Interior? A resposta não poderia ser outra: "precisamos articular as inúmeras iniciativas que estão agindo, mas isoladamente, e organizar o Movimento Social”. Esse pacto seria o passo definitivo para transformar  as estruturas dominantes e conservadoras e firmar a vontade do povo.

Essa formatação  como 'sonho delirante' entrou no meio popular como  "água em terra seca". Foi imediatamente  absorvida a ponto de ultrapassar as idéias  reivindicatórias e atingir a defesa da ecologia e do meio ambiente.

Não demorou muito, para que suas lideranças perceberem que o movimento social não poderia dar as resposta que o povo esperava às suas necessidades, porque para administrar um Estado ou país, o Governo faz composição com o Partido e não com Movimento Social. Era preciso rever a caminhada e avançar na discussão. Mas, as questões se colocavam: Qual é o caminho? O caminho é o Partido Político? Mas qual partido? Se tudo que temos é representação da dominação. Mas, já havia uma solução. E estava no incipiente Partido dos Trabalhadores, organizado  a partir do movimento sindical, sobretudo, paulista.

Mas o que identificava aquele partido com as ações no Pará: o DEBATE. O PT, então, era a ferramenta que faltava para dar resposta ao anseio popular. Um passo importante nessa direção para o Pará foi a vitória do PT para Prefeitura de Belém em 1996 e a participação que o Pará teve na eleição do Presidente Lula em 2002. Isso fortaleceu no interior do Estado, a convicção de que “o povo pode”.
Após ampliar, nas eleições de 2004, o numero de Prefeituras governadas pelo PT, a semente estava plantada: governar o estado do Pará. Sustentado por essa idéia o PT elegeu Ana Júlia governadora em 2006 para concretizar a vontade popular que era garantir melhores condições de vida para a maioria da população paraense.

Mas o que se viu durante o governo popular eleito no Pará?

1) completo desrespeito ao movimento Social;
2) ignorou-se a luta popular;
3) negação total dos fins pelos quais as lutas sociais tinham sua razão de existir: transformar as estruturas opressivas;
4) valorização exacerbada do grupo da  DS;
5) aniquilação de lideranças petistas;
6) incompetência, materializada na elaboração de políticas públicas;
7) passou ver a militância como voto ou “cabos eleitorais”, não como "interagente" na elaboração das políticas de governo;
8) passou a ufanar-se como símbolo do conhecimento e ter chegado ao poder com mérito de uma tendência e não de um Partido e dos partidos aliados;
9) a execução de um Projeto de Governo suicida que reconduziu a direita ao poder.

Em síntese, a Democracia Socialista ensinou ao PT como se faz para perder eleição, militantes e projeto de transformação social.

Belém, 23 de janeiro de 2011.

* Bacharel em Filosofia  pelo CES Centro de Estudo Superiores Companhia de Jesus Reconhecido pela UFMG. Especializado em Controle  Interno e Externo da Administração Pública pela UFPI e membro da direção estadual da tendência petista Articulação de Esquerda (AE).



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1 Response to "A TENDÊNCIA DEMOCRACIA SOCIALISTA (DS) E A DESCONSTRUÇÃO DO "SONHO POPULAR PETISTA""

  1. Do amigo navegante:

    Para o Antonio Osmar, da AE, que vê a gênese histórica do movimento operário e camponês a partir de 1979, quando o PT surge, devemos lembrar-lhe o movimento cabano, as ações do PCB, PC do B, e de muitos militantes independentes, inclusive religiosos, que lutaram para a organização do proletariado, com vistas a elevar o patamar de consciência desses grupos e em busca de justiça social, em um ambiente inóspito.

    A disputa ideológica sempre foi muito forte e sempre pendeu para a elite que dispunha, como ainda dispõe do poder (executivo, legislativo e judiciário), que detém a força e permite a manipulação das idéias, através dos meios de comunicação, distorcendo-as em seu benefício. Dizer que tudo estava pronto, só faltava o partido, que grande equívoco.

    O PT surgiu e se tornou uma força que buscou impulsionar os avanços, ainda que pequenos, mas significativos, para a melhoria das condições da população mais pobres. Entretanto, o PT, ao ganhar o governo (Lula, Ana Júlia, Dilma, e outros) teve que buscar apoio nos grupos do centro político, para a governabilidade. Embora se diga que era um governo do PT, na realidade era um governo de composição, com hegemonia do PT, em que partidos diversos participaram do poder. E a composição nem sempre foi pacífica e permaneceu estável.

    Questões de conjuntura estão sempre presentes e podem estremecer as relações interpartidárias. No início do governo Ana Júlia o PMDB estava debilitado, mas ao final, fortalecido, começou a fazer exigência políticas, que não podiam ser aceitas. Todo mundo sabia que Jader queria que o PT não lançasse candidato ao senado, ou melhor, como falavam, a boca pequena, lançasse um “poste”, para que ficasse assegurada, desde logo, a vitória do PMDB, com a idéia de que um senador seria da situação e outro da oposição. E aí tudo começou e balões de ensaio com Jader concorrendo ora para o Governo ora para o senado, buscando acuar o governo PT.

    O acirramento começou aí e os argumentos para o choque foram inúmeros e Jader começou a atacar o governo através de seus meios de comunicação e também, colocando seus “peões” (Simone, Parcival, etc) para o ataque direto ao governo, já em um processo de desgaste contínuo junto a sociedade, que o partido não soube avaliar corretamente. Nessa altura a engenharia política já estava traçada, as peças do jogo de xadrez devidamente colocadas. Não interessava a continuidade da hegemonia do PT no governo para as aspirações peemedebistas. E olha que o PT e a governadora Ana Júlia fizeram de tudo para que o PMDB ficasse como aliado. O campo da direita se rearticulou e provocou a derrota.

    Se procura erro, vai encontrar erro, se procura excelência vai achar excelência. Procurar erros é importante para não cometê-los no futuro, mas também é importante ver o que de bom aconteceu e não ficar com olhar estrábico só vendo um dos lados. Culpar esta ou aquela pessoa ou tendência, parece: ser um sentimento apequenado para quem quer um partido que está sempre se renovando, unido na luta e que precisa estar buscando a interação contínua com a sociedade, principalmente a organizada; não ver que o governo teve a participação do PT, como um todo, com todas as suas tendências e que o legado deixado pelo Governo vai ser objeto de avaliação nas futuras eleições.

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